Lista de Filmes com o Arquétipo do Perdedor: 8 histórias em que fracassar é apenas o começo
Linha fina: Uma Lista de Filmes com o Arquétipo do Perdedor reúne personagens desacreditados, deslocados, rejeitados ou aparentemente incapazes de alcançar seus objetivos — mas que encontram no fracasso, na persistência e na própria identidade o caminho para transformar suas histórias.
Introdução
Poucos arquétipos cinematográficos são tão humanos quanto o do perdedor. Muito antes de conquistar qualquer vitória, esses personagens convivem com rejeição, insegurança, falta de dinheiro, fracassos profissionais, problemas familiares, limitações físicas ou simplesmente a sensação de não pertencer ao lugar onde vivem.
É justamente por isso que uma Lista de Filmes com o Arquétipo do Perdedor pode ser muito mais interessante do que uma coleção de histórias tradicionais de superação. O arquétipo não depende necessariamente de uma grande vitória no final. Em muitos casos, o personagem continua longe do sucesso convencional, mas passa a enxergar a própria vida de outra maneira.
Do boxeador desconhecido de Rocky ao adolescente socialmente deslocado de Napoleon Dynamite, passando por personagens que enfrentam fracassos profissionais, familiares e afetivos, estas histórias mostram que o cinema pode transformar a figura do derrotado em protagonista.
O ponto em comum desta Lista de Filmes com o Arquétipo do Perdedor é justamente a distância entre aquilo que o personagem deseja ser e aquilo que o mundo espera que ele seja.
O que é o arquétipo do perdedor no cinema?
O chamado arquétipo do perdedor representa um personagem que começa a narrativa em posição de desvantagem. Ele pode ser considerado fracassado pelas pessoas ao redor, pode ter perdido oportunidades importantes ou simplesmente não possuir as características normalmente associadas ao protagonista tradicional.
Esse personagem pode ser pobre, impopular, inexperiente, solitário, profissionalmente frustrado ou socialmente inadequado.
Entretanto, existe uma diferença importante entre um personagem perdedor e um personagem simplesmente incompetente.
O arquétipo funciona melhor quando o roteiro mostra que existe uma pessoa por trás da derrota. O espectador acompanha seus desejos, medos, contradições e pequenas conquistas. Dessa forma, o fracasso deixa de ser uma característica definitiva e passa a ser uma condição temporária — ou, em alguns casos, uma perspectiva criada pela própria sociedade.
Por que esse arquétipo funciona tão bem?
Porque a maioria das pessoas não passa a vida vencendo.
O cinema tradicional costuma concentrar sua atenção em heróis extraordinários, vencedores, gênios, atletas excepcionais e indivíduos destinados à grandeza. O arquétipo do perdedor oferece outra perspectiva: a do sujeito comum tentando conseguir alguma coisa em um mundo que parece ter sido construído para outras pessoas.
É nesse espaço que surge uma das maiores forças dessas narrativas.
O espectador não torce necessariamente para que o personagem se torne campeão. Muitas vezes, torce apenas para que ele consiga terminar o dia com alguma dignidade.
1. Rocky
Poucos filmes representam tão claramente o arquétipo do perdedor quanto Rocky. A produção de 1976 acompanha Rocky Balboa, um boxeador de segunda linha que trabalha como cobrador de dívidas e recebe uma oportunidade praticamente impossível: enfrentar o campeão mundial Apollo Creed.
O detalhe mais importante é que Rocky não começa como um campeão incompreendido. Ele realmente está em uma posição inferior.
A grandeza do personagem surge justamente porque ele não precisa necessariamente vencer a luta para provar seu valor.
A história
Rocky vive em Filadélfia e leva uma existência modesta. Seu trabalho como lutador profissional não lhe proporciona fama nem dinheiro suficientes para mudar de vida.
Sua rotina começa a se transformar quando Apollo Creed precisa escolher um adversário para uma luta comemorativa. A escolha recai sobre Rocky, que recebe uma oportunidade que praticamente ninguém acredita que possa aproveitar.
Paralelamente, Rocky se aproxima de Adrian, tímida funcionária de uma loja de animais e irmã de seu amigo Paulie.
A história mistura romance, esporte e drama pessoal para mostrar que a luta de Rocky não acontece apenas dentro do ringue.
O arquétipo do perdedor em Rocky
O roteiro trabalha uma ideia particularmente poderosa: vencer não significa necessariamente derrotar o adversário.
Rocky estabelece como objetivo conseguir permanecer de pé durante toda a luta. É uma meta aparentemente pequena diante da dimensão do desafio, mas gigantesca para alguém que passou a vida sendo tratado como um sujeito sem futuro.
Essa inversão transforma Rocky em um dos grandes exemplos do arquétipo do perdedor.
Direção e atuações
John G. Avildsen dirige o filme privilegiando o cotidiano antes do espetáculo esportivo. A preparação para a luta é tão importante quanto o combate.
Sylvester Stallone também escreveu o roteiro e interpreta Rocky, criando um protagonista econômico, carismático e vulnerável.
Talia Shire, Burt Young, Carl Weathers e Burgess Meredith completam o núcleo principal.
Trilha sonora e fotografia
A trilha de Bill Conti se tornou uma das marcas mais reconhecíveis do cinema esportivo. A fotografia acompanha a transformação do personagem sem transformar sua vida em um conto de luxo.
A Filadélfia apresentada no filme é fundamental para a atmosfera. O ambiente urbano, os apartamentos simples, as ruas e a academia ajudam a construir a sensação de uma vida vivida à margem do sucesso.
Prêmios e legado
Rocky venceu o Oscar de Melhor Filme na cerimônia de 1977 e se tornou uma das obras mais influentes do cinema esportivo.
O bonequinho de Rocky
O bonequinho começa sentado no canto do ringue, desconfiado das próprias chances. Conforme o treinamento avança, ele se levanta, ajeita as luvas e termina o filme completamente empolgado.
Nota: ⭐⭐⭐⭐⭐ 5 de 5 estrelas
2. Rudy
Se existe uma obra construída sobre a ideia de perseguir um sonho considerado improvável, é Rudy.
Lançado em 1993, o filme acompanha Daniel “Rudy” Ruettiger, jovem apaixonado por futebol americano que sonha estudar e jogar pela tradicional universidade de Notre Dame.
O problema é que Rudy não possui o tamanho físico, o talento atlético ou o desempenho acadêmico que normalmente abririam esse caminho.
A história de Rudy
Rudy cresce ouvindo que seu sonho é grande demais para suas capacidades.
A morte de uma pessoa importante para ele reforça sua decisão de tentar chegar a Notre Dame. Para isso, ele precisa enfrentar dificuldades acadêmicas, financeiras e esportivas.
O filme acompanha um personagem que frequentemente recebe um “não” como resposta, mas continua tentando.
Por que Rudy representa o arquétipo do perdedor?
Porque a narrativa não apresenta Rudy como um escolhido.
Ele é justamente o contrário.
Sua trajetória depende de persistência, disciplina e disposição para aceitar que cada pequeno avanço pode levar muito tempo.
O personagem não conquista espaço por possuir uma habilidade extraordinária. Ele conquista espaço porque se recusa a abandonar completamente aquilo que considera importante.
Atuações
Sean Astin conduz o filme com uma interpretação baseada mais na determinação do que no heroísmo convencional. Jon Favreau e Charles S. Dutton também têm papéis importantes na trajetória do protagonista.
Fato real
Rudy é inspirado na trajetória real de Daniel Ruettiger, embora o filme dramatize acontecimentos e personagens para construir sua narrativa.
O bonequinho de Rudy
O bonequinho passa boa parte do filme carregando uma mochila maior do que ele. No terceiro ato, finalmente coloca a mochila no chão, arregala os olhos e começa a bater palmas.
Nota: ⭐⭐⭐⭐½ 4,5 de 5 estrelas
3. Billy Elliot
Billy Elliot apresenta uma variação diferente do arquétipo do perdedor.
Aqui, o protagonista não fracassa porque lhe falta talento. O problema é que as pessoas ao seu redor não conseguem inicialmente enxergar seu talento como algo válido.
O filme acompanha um garoto de uma comunidade operária inglesa que descobre uma paixão inesperada pelo balé.
Uma batalha contra expectativas
Billy vive em uma família ligada ao ambiente da mineração e começa a ter contato com a dança enquanto participa de aulas de boxe.
A descoberta provoca resistência.
O garoto precisa enfrentar não apenas as próprias inseguranças, mas também expectativas familiares e sociais sobre aquilo que um menino deveria fazer.
O arquétipo do perdedor, nesse caso, está relacionado à sensação de estar no lugar errado.
Direção e roteiro
Stephen Daldry dirige a produção a partir do roteiro de Lee Hall. A narrativa combina drama familiar, amadurecimento e questões sociais sem reduzir Billy a um símbolo.
O personagem possui medo, raiva, impulsividade e momentos de dúvida.
É justamente essa imperfeição que torna sua trajetória convincente.
Música e dança
A dança funciona como linguagem emocional.
Quando Billy não consegue explicar aquilo que sente, seu corpo passa a falar por ele. A movimentação também cria um contraste interessante com o ambiente industrial em que vive.
Reconhecimento
Billy Elliot recebeu três indicações ao Oscar, incluindo Melhor Direção e Melhor Roteiro Original, além de ter conquistado diversos outros prêmios.
O bonequinho de Billy Elliot
O bonequinho começa tentando lutar boxe, percebe que aquilo não é para ele e termina dançando como se tivesse descoberto uma porta secreta no próprio corpo.
Nota: ⭐⭐⭐⭐⭐ 5 de 5 estrelas
4. Napoleon Dynamite
Entre os filmes desta Lista de Filmes com o Arquétipo do Perdedor, Napoleon Dynamite talvez seja o exemplo mais excêntrico.
Napoleon não é apresentado como alguém que pretende dominar o mundo. Ele simplesmente tenta sobreviver ao cotidiano escolar, às situações familiares e às próprias limitações sociais.
Um protagonista completamente deslocado
Napoleon é estranho, desajeitado e pouco interessado em seguir os códigos sociais de seus colegas.
Sua amizade com Pedro, um estudante recém-chegado, cria o eixo principal da história. Os dois acabam envolvidos na eleição para presidente da escola.
O filme transforma situações banais em acontecimentos quase épicos.
O humor do fracasso
A grande qualidade de Napoleon Dynamite está em não tentar transformar seu protagonista em uma pessoa convencional.
Napoleon não precisa deixar de ser estranho para conquistar algum espaço.
A narrativa aceita suas excentricidades e encontra humor justamente na diferença entre aquilo que ele acredita estar fazendo e a maneira como os outros enxergam suas ações.
Direção e elenco
Jared Hess dirigiu e escreveu o filme em parceria com Jerusha Hess. Jon Heder interpreta Napoleon, enquanto Efren Ramirez, Tina Majorino, Jon Gries e Aaron Ruell integram o elenco principal.
O bonequinho de Napoleon Dynamite
O bonequinho começa entediado, olha para o relógio, suspira e, de repente, levanta para dançar sem qualquer preocupação com o que os outros estão pensando.
Nota: ⭐⭐⭐⭐½ 4,5 de 5 estrelas
5. Pequena Miss Sunshine
Pequena Miss Sunshine amplia o conceito do arquétipo ao transformar uma família inteira em um grupo de personagens que não se encaixa perfeitamente no modelo tradicional de sucesso.
Cada integrante dos Hoovers carrega uma forma diferente de fracasso.
Uma família de perdedores
Richard acredita que pode ensinar uma fórmula para o sucesso.
Dwayne enfrenta uma crise de identidade e comunicação.
Frank passa por uma profunda decepção pessoal.
Edwin é um idoso irreverente que vive de maneira completamente fora das convenções.
Sheryl tenta manter a família funcionando enquanto tudo parece desmoronar.
E Olive, a menina que dá nome à viagem, simplesmente deseja participar de um concurso de beleza.
O resultado é uma família formada por pessoas que não parecem ter muita coisa em comum, mas que acabam encontrando solidariedade justamente quando deixam de tentar parecer vencedoras.
A viagem como metáfora
A Kombi amarela é mais do que um veículo.
Ela representa uma família literalmente obrigada a permanecer junta enquanto cada um enfrenta seus próprios problemas.
Os defeitos do carro acompanham os defeitos dos personagens. Quando algo quebra, todos precisam colaborar.
Fotografia e montagem
A fotografia utiliza uma estética simples e funcional, enquanto a montagem mantém o ritmo da viagem sem transformar cada acontecimento em um grande espetáculo.
Essa simplicidade favorece o humor e permite que momentos dramáticos apareçam naturalmente.
Prêmios
Pequena Miss Sunshine recebeu quatro indicações ao Oscar e venceu duas categorias: Melhor Ator Coadjuvante, para Alan Arkin, e Melhor Roteiro Original, para Michael Arndt.
O bonequinho de Pequena Miss Sunshine
O bonequinho entra na Kombi reclamando, passa a viagem inteira sendo jogado de um lado para o outro e termina dançando no meio de uma situação completamente absurda.
Nota: ⭐⭐⭐⭐⭐ 5 de 5 estrelas
6. O Virgem de 40 Anos
A comédia O Virgem de 40 Anos apresenta o arquétipo do perdedor através de uma situação social que poderia facilmente transformar o protagonista em objeto de ridicularização permanente.
Andy é um homem de 40 anos que nunca teve relações sexuais e vive uma existência bastante solitária.
O fracasso como segredo
Andy não é incompetente em todos os aspectos da vida.
Ele trabalha, possui amigos e mantém uma rotina relativamente estável. Seu problema é que sente vergonha de uma parte de sua vida que considera atrasada em relação às expectativas sociais.
Quando seus colegas descobrem sua virgindade, decidem ajudá-lo a mudar a situação.
O resultado é uma sequência de situações constrangedoras, mas o roteiro gradualmente percebe que a questão não é simplesmente perder a virgindade.
O verdadeiro conflito
A questão central de O Virgem de 40 Anos é a dificuldade de Andy em estabelecer intimidade emocional.
Ele possui medo de ser julgado e construiu uma rotina segura para evitar rejeições.
Nesse sentido, o personagem se encaixa no arquétipo do perdedor não porque seja incapaz de conquistar alguém, mas porque está preso à própria insegurança.
Direção e elenco
Judd Apatow dirigiu o filme e escreveu o roteiro com Steve Carell, que interpreta Andy.
Catherine Keener interpreta Trish, enquanto Paul Rudd, Romany Malco e Seth Rogen fazem parte do grupo de colegas que tenta ajudá-lo.
O bonequinho de O Virgem de 40 Anos
O bonequinho está sentado atrás de uma mesa, vermelho de vergonha, olhando para os lados. Aos poucos, ganha confiança e finalmente consegue respirar sem parecer que vai desmaiar.
Nota: ⭐⭐⭐⭐ 4 de 5 estrelas
7. O Lutador
Se Rocky apresenta o perdedor tentando chegar ao topo, O Lutador apresenta o homem que já esteve lá e precisa lidar com a queda.
Lançado em 2008, o filme dirigido por Darren Aronofsky acompanha Randy “The Ram” Robinson, um lutador profissional envelhecido que continua participando de combates em circuitos menores.
Quando o passado vira prisão
Randy teve seus dias de glória, mas agora enfrenta problemas financeiros, desgaste físico e dificuldades para reconstruir sua relação com a filha.
O ringue continua sendo o lugar onde ele se sente reconhecido.
Fora dele, Randy precisa descobrir quem é quando já não possui a fama que um dia definiu sua identidade.
Um arquétipo mais sombrio
A grande diferença entre O Lutador e outras histórias desta Lista de Filmes com o Arquétipo do Perdedor está no tom.
Aqui, o fracasso não é tratado como uma etapa divertida rumo à vitória.
Ele tem consequências reais.
O filme questiona o que acontece quando uma pessoa passa tanto tempo sendo valorizada por aquilo que faz que não consegue imaginar uma vida fora daquela atividade.
Mickey Rourke
Mickey Rourke interpreta Randy em uma atuação marcada pelo desgaste físico e emocional do personagem.
Marisa Tomei e Evan Rachel Wood também desempenham papéis importantes na trajetória do protagonista.
Direção
Darren Aronofsky utiliza câmera próxima e movimentos que acompanham Randy de maneira quase documental. O espectador não observa apenas o lutador: acompanha seu corpo envelhecido, seus momentos de solidão e a dificuldade de existir longe do público.
O bonequinho de O Lutador
O bonequinho começa com uma faixa na cabeça e um sorriso nostálgico. Conforme a história avança, ele abaixa a cabeça, respira fundo e termina olhando para o ringue com uma mistura de tristeza e coragem.
Nota: ⭐⭐⭐⭐⭐ 5 de 5 estrelas
8. O Rei da Comédia
Entre os exemplos mais perturbadores do arquétipo está O Rei da Comédia, dirigido por Martin Scorsese em 1982.
Robert De Niro interpreta Rupert Pupkin, um aspirante a comediante convencido de que está destinado ao sucesso.
O problema é que o mundo não compartilha dessa certeza.
Quando o perdedor não aceita perder
Rupert não possui a trajetória tradicional do protagonista desacreditado que aprende uma lição de humildade.
Ele acredita sinceramente que merece reconhecimento.
Sua obsessão por aparecer em um programa de televisão apresentado por seu ídolo leva o personagem a ultrapassar limites cada vez mais preocupantes.
Essa é uma das versões mais interessantes do arquétipo porque o espectador é colocado dentro da mente de alguém incapaz de reconhecer a própria derrota.
Robert De Niro e a construção de Rupert
De Niro interpreta Rupert sem transformá-lo em um vilão tradicional.
Ele é constrangedor, insistente e egocêntrico, mas também é alguém que construiu uma fantasia na qual acredita ser protagonista de uma história de sucesso.
A distância entre fantasia e realidade produz grande parte do humor desconfortável do filme.
Direção e fotografia
Scorsese utiliza uma estética que mistura sátira, comédia negra e drama psicológico.
A televisão aparece como uma espécie de portal para um mundo em que Rupert acredita que finalmente será reconhecido.
O contraste entre os bastidores e a imagem pública reforça o tema central: a diferença entre ser famoso e simplesmente desejar desesperadamente ser famoso.
Reconhecimento
O Rei da Comédia conquistou reconhecimento posterior e recebeu um BAFTA, além de ter se tornado uma referência importante para obras que exploram fama, obsessão e identidade.
O bonequinho de O Rei da Comédia
O bonequinho começa empolgado segurando um microfone. Depois percebe que alguma coisa está errada, olha para a câmera e lentamente se esconde atrás da cortina.
Nota: ⭐⭐⭐⭐½ 4,5 de 5 estrelas
O que esses filmes têm em comum?
Embora pertençam a gêneros muito diferentes, os filmes desta Lista de Filmes com o Arquétipo do Perdedor compartilham alguns elementos narrativos.
1. O protagonista começa em desvantagem
Rocky é um boxeador desconhecido.
Rudy é considerado pequeno demais para jogar futebol americano.
Billy precisa convencer outras pessoas de que sua paixão pela dança é legítima.
Napoleon não consegue se encaixar no ambiente escolar.
Andy se sente atrasado em relação à própria vida amorosa.
Randy perdeu o espaço que ocupava no mundo do wrestling.
Rupert não possui o reconhecimento que acredita merecer.
Essa desvantagem cria imediatamente um conflito.
2. O fracasso é parte da identidade
Um dos elementos mais interessantes do arquétipo é que o personagem frequentemente acredita que seu fracasso define quem ele é.
É exatamente por isso que essas histórias funcionam.
A transformação mais importante não acontece quando o protagonista recebe dinheiro, fama, um troféu ou uma oportunidade.
Ela acontece quando ele começa a separar sua identidade do julgamento dos outros.
3. A vitória pode ser subjetiva
Em uma narrativa convencional, vitória significa alcançar o objetivo anunciado no início.
No arquétipo do perdedor, essa lógica pode ser alterada.
Rocky precisa apenas provar que consegue permanecer no ringue.
Rudy quer participar de um jogo.
Billy precisa conseguir dançar.
Olive quer chegar ao concurso.
Andy busca construir uma relação verdadeira.
Esses objetivos podem parecer pequenos quando comparados a grandes histórias épicas, mas são enormes para os personagens.
O arquétipo do perdedor é sempre uma história de superação?
Não.
Essa é uma das principais diferenças entre uma boa história sobre fracasso e uma simples narrativa motivacional.
Filmes como Rocky trabalham claramente com superação. Já O Lutador apresenta uma perspectiva muito mais amarga.
Em O Rei da Comédia, o problema está justamente na incapacidade do protagonista de aceitar seus próprios limites.
Já Napoleon Dynamite transforma a inadequação social em fonte de humor.
Portanto, o arquétipo não exige um final feliz.
Ele exige apenas que o personagem esteja em conflito com uma condição de fracasso, inadequação ou exclusão.
Por que o público se identifica com esses personagens?
A resposta está na vulnerabilidade.
Super-heróis podem ser admirados. Campeões podem ser celebrados. Gênios podem ser respeitados.
Mas personagens que falham frequentemente são reconhecidos.
Eles esquecem coisas, perdem oportunidades, são rejeitados, passam vergonha, têm empregos ruins, não sabem o que fazer da vida ou descobrem que seus sonhos são mais difíceis do que imaginavam.
Essa proximidade torna o arquétipo particularmente poderoso.
Em uma Lista de Filmes com o Arquétipo do Perdedor, o público encontra personagens que não precisam ser extraordinários para carregar uma história.
Os diferentes tipos de perdedor no cinema
O arquétipo também pode aparecer em diferentes formatos.
O perdedor esportivo
Rudy e Rocky representam personagens fisicamente desacreditados que recebem uma oportunidade de provar seu valor.
O perdedor social
Napoleon Dynamite representa o personagem que simplesmente não entende — ou não aceita — as regras sociais de seu ambiente.
O perdedor familiar
Pequena Miss Sunshine apresenta vários personagens que fracassaram segundo diferentes padrões de sucesso.
O perdedor afetivo
O Virgem de 40 Anos utiliza a comédia para explorar solidão, insegurança e dificuldade de estabelecer intimidade.
O perdedor que não aceita a derrota
O Rei da Comédia leva esse conceito para um território psicológico muito mais sombrio.
O perdedor que perdeu o próprio auge
O Lutador mostra o que acontece quando o protagonista precisa descobrir uma identidade depois que o período de glória termina.
Existe um “final explicado” para o arquétipo do perdedor?
Não existe uma fórmula única.
Em algumas histórias, o personagem consegue aquilo que deseja. Em outras, percebe que o objetivo inicial não era realmente o mais importante.
Em Rocky, a luta representa a conquista de respeito próprio.
Em Billy Elliot, a dança se torna uma forma de encontrar identidade.
Em Pequena Miss Sunshine, a família descobre que a competição pode ser menos importante do que permanecer unida.
Em O Lutador, a relação do protagonista com o ringue é muito mais dolorosa porque representa tanto sua identidade quanto sua incapacidade de abandonar o passado.
Já O Rei da Comédia deixa o espectador diante de uma questão perturbadora: o que acontece quando uma pessoa prefere viver dentro da própria fantasia a aceitar a realidade?
Ficha técnica resumida dos filmes
| Filme | Ano | Direção | Gênero | Duração |
|---|---|---|---|---|
| Rocky | 1976 | John G. Avildsen | Drama, esporte | 120 min |
| Rudy | 1993 | David Anspaugh | Drama, esporte, biografia | 114 min |
| Billy Elliot | 2000 | Stephen Daldry | Drama, amadurecimento | 110 min |
| Napoleon Dynamite | 2004 | Jared Hess | Comédia | 96 min |
| Pequena Miss Sunshine | 2006 | Jonathan Dayton e Valerie Faris | Comédia dramática | 101 min |
| O Virgem de 40 Anos | 2005 | Judd Apatow | Comédia romântica | 116 min |
| O Lutador | 2008 | Darren Aronofsky | Drama, esporte | 109 min |
| O Rei da Comédia | 1982 | Martin Scorsese | Comédia negra, drama | 109 min |
Qual é a principal mensagem desses filmes?
A principal força de uma Lista de Filmes com o Arquétipo do Perdedor está justamente em mostrar que fracasso e identidade não são necessariamente a mesma coisa.
Ser rejeitado não significa ser indigno.
Ser desconhecido não significa não possuir talento.
Perder uma competição não significa perder a própria vida.
Estar atrasado em relação às expectativas sociais não significa estar atrasado em relação à própria existência.
E, principalmente, nem toda vitória precisa ser reconhecida por uma plateia.
Rocky, Rudy, Billy Elliot, Napoleon Dynamite, Pequena Miss Sunshine, O Virgem de 40 Anos, O Lutador e O Rei da Comédia apresentam versões completamente diferentes dessa ideia.
Alguns personagens vencem.
Outros apenas encontram um motivo para continuar.
E alguns descobrem que o verdadeiro problema nunca foi perder, mas acreditar que uma pessoa precisa ser considerada vencedora para ter valor.
Essa é a razão pela qual o arquétipo continua tão presente no cinema: o perdedor pode ser o personagem mais próximo da experiência humana comum.
Em uma Lista de Filmes com o Arquétipo do Perdedor, a grande transformação nem sempre acontece quando o protagonista derrota alguém. Muitas vezes, ela acontece quando ele finalmente decide continuar sendo ele mesmo, mesmo depois de descobrir que o mundo não pretendia lhe entregar uma vitória fácil.
Por: Alexandre lavrador. Opinião do Blogueiro.
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