Lista de Filmes com o Arquétipo do Pária
Da criatura rejeitada ao homem que decide viver à margem: uma análise de filmes em que o protagonista ocupa o lugar do estranho, do excluído e daquele que não encontra espaço dentro da sociedade.
O arquétipo do pária aparece no cinema sempre que um personagem é colocado à margem da comunidade, da família, das instituições ou das regras sociais. Em vez de pertencer ao grupo, ele observa o mundo de fora, é rejeitado por ele ou decide abandoná-lo. Essa posição pode nascer da aparência, da origem, de um trauma, de uma condição social, de escolhas pessoais ou simplesmente da incapacidade de se adaptar ao ambiente em que vive.
Uma Lista de Filmes com o Arquétipo do Pária permite perceber como esse personagem mudou ao longo das décadas. Em alguns casos, o pária é uma vítima de preconceito. Em outros, transforma-se em um sobrevivente. Há ainda personagens que passam da exclusão para a violência, enquanto outros encontram na própria marginalização uma forma inesperada de liberdade.
O arquétipo também é particularmente interessante porque o pária raramente é apenas um “solitário”. Ele costuma funcionar como um espelho da sociedade que o rejeita. O conflito central não está somente em saber se o personagem conseguirá voltar para o grupo, mas em questionar se o grupo realmente merece sua confiança.
Nesta Lista de Filmes com o Arquétipo do Pária, oito obras de épocas e gêneros diferentes mostram essa transformação: do sofrimento silencioso de O Homem Elefante ao isolamento psicológico de Taxi Driver, passando pela fantasia melancólica de Edward Mãos de Tesoura e pela trajetória de sobrevivência de Rambo: Programado para Matar.
O que é o arquétipo do pária?
O pária é o personagem que ocupa uma posição de exclusão. Ele pode ser rejeitado pelos outros ou escolher conscientemente viver afastado da sociedade. A característica essencial é a existência de uma fronteira entre ele e o grupo.
Essa fronteira pode ser física, psicológica, cultural ou moral.
Um personagem fisicamente diferente pode ser transformado em espetáculo. Um veterano de guerra pode retornar para casa e descobrir que não consegue mais se encaixar. Um homem solitário pode observar a cidade durante a madrugada sem estabelecer vínculos verdadeiros. Uma pessoa com poderes extraordinários pode perceber que sua própria existência a torna incompatível com o mundo ao redor.
Por isso, o arquétipo não depende de um único tipo de personagem.
O pária pode ser:
- o rejeitado;
- o estrangeiro;
- o deformado;
- o órfão;
- o sobrevivente;
- o exilado;
- o marginal;
- o incompreendido;
- o criminoso;
- o anti-herói;
- o indivíduo que perdeu seu lugar na sociedade.
O que une essas figuras é a sensação de não pertencimento.
Lista de Filmes com o Arquétipo do Pária
1. O Corcunda de Notre Dame — 1939
Poucos personagens representam o arquétipo do pária de maneira tão direta quanto Quasimodo. Na versão cinematográfica de 1939, dirigida por William Dieterle e estrelada por Charles Laughton, o sineiro de Notre-Dame vive fisicamente isolado no alto da catedral e socialmente separado da população.
A aparência de Quasimodo determina a maneira como os outros o enxergam. Antes mesmo de conhecer sua personalidade, a sociedade medieval o transforma em objeto de medo, curiosidade e crueldade.
A força do filme está justamente em inverter essa perspectiva. O personagem que é tratado como monstruoso demonstra sentimentos profundamente humanos, enquanto indivíduos aparentemente respeitáveis podem agir de maneira muito mais cruel.
O pária, portanto, não é necessariamente aquele que possui uma natureza monstruosa. Muitas vezes, é simplesmente aquele que recebeu esse rótulo.
O roteiro e a construção do pária
A narrativa trabalha com um contraste poderoso entre aparência e caráter. Quasimodo possui limitações físicas, mas demonstra lealdade e capacidade de afeto. A sociedade, por outro lado, possui instituições, leis e autoridades, mas não necessariamente demonstra humanidade.
A catedral também funciona como símbolo. Ela é simultaneamente abrigo e prisão. Quasimodo está protegido das ruas, mas também aprisionado em uma posição de isolamento.
A fotografia em preto e branco reforça a atmosfera gótica, enquanto os espaços monumentais fazem o personagem parecer ainda menor diante do mundo que o rejeita.
A produção foi baseada no romance de Victor Hugo e possui 116 minutos de duração. O elenco também inclui Maureen O’Hara, Cedric Hardwicke e Thomas Mitchell. (Wikipedia)
Nota: ⭐⭐⭐⭐⭐ 5 de 5 estrelas
O bonequinho de O Corcunda de Notre Dame
O bonequinho começa assustado com a crueldade dos habitantes de Paris, depois fica indignado com a injustiça e termina emocionado, olhando para Quasimodo como quem finalmente entendeu que o verdadeiro monstro nunca esteve na torre.
2. O Homem Elefante — 1980
Se existe um filme essencial para compreender o arquétipo do pária como vítima da sociedade, O Homem Elefante ocupa uma posição central.
Dirigido por David Lynch, o filme acompanha John Merrick, personagem inspirado na figura histórica Joseph Merrick, um homem severamente deformado que viveu na Londres do século XIX.
John Hurt interpreta Merrick, enquanto Anthony Hopkins interpreta o médico Frederick Treves. O elenco também conta com Anne Bancroft, John Gielgud e Wendy Hiller. A fotografia em preto e branco é de Freddie Francis, a montagem de Anne V. Coates e a música de John Morris. A produção possui 123 minutos. (Wikipedia)
Um pária transformado em espetáculo
A ideia mais perturbadora do filme é que a exclusão não acontece apenas por rejeição. Merrick é literalmente transformado em atração.
Seu corpo deixa de ser visto como parte de uma pessoa e passa a ser tratado como mercadoria visual. A curiosidade dos espectadores se transforma em violência, enquanto o personagem precisa lutar para recuperar algo muito mais importante do que sua liberdade: sua humanidade.
David Lynch evita transformar Merrick em uma figura simplesmente trágica. O personagem demonstra inteligência, sensibilidade, educação e capacidade de estabelecer vínculos.
O filme questiona, portanto, quem realmente está sendo observado.
Fotografia e atmosfera
O preto e branco possui uma função narrativa fundamental. Londres aparece como um espaço escuro, úmido e industrial, quase sempre coberto por fumaça e sombras.
A fotografia não serve apenas para criar beleza visual. Ela transforma a cidade em um ambiente opressivo, no qual a figura de Merrick parece estar permanentemente cercada por olhares.
A música também amplia o aspecto emocional sem transformar a história em sentimentalismo fácil.
A obra recebeu oito indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme, Direção, Ator, Roteiro Adaptado, Fotografia e Montagem. (Oscars)
Nota: ⭐⭐⭐⭐⭐ 5 de 5 estrelas
O bonequinho de O Homem Elefante
O bonequinho passa praticamente o filme inteiro com os olhos marejados. Em alguns momentos tenta se recompor, mas a humanidade de Merrick desmonta qualquer tentativa de assistir à história com indiferença.
3. Edward Mãos de Tesoura — 1990
Tim Burton transforma o pária em uma figura de conto de fadas em Edward Mãos de Tesoura.
Edward é uma criatura artificial criada por um inventor. Antes de completar sua obra, o inventor morre, deixando Edward com tesouras no lugar das mãos.
Johnny Depp interpreta o protagonista, acompanhado por Winona Ryder, Dianne Wiest, Anthony Michael Hall, Kathy Baker, Vincent Price e Alan Arkin. Tim Burton dirige o longa a partir de roteiro de Caroline Thompson. Stefan Czapsky assina a fotografia, Richard Halsey a montagem e Danny Elfman a trilha sonora. O filme possui 105 minutos. (Wikipedia)
O estranho em um mundo aparentemente perfeito
A vizinhança apresentada pelo filme parece perfeita: casas coloridas, jardins cuidadosamente tratados, roupas impecáveis e moradores sempre interessados na vida alheia.
Edward, entretanto, não pertence àquele universo.
Inicialmente, sua diferença desperta curiosidade. Depois, transforma-se em fascínio. Em seguida, os mesmos moradores que o acolheram começam a enxergá-lo como ameaça.
Essa mudança é uma das melhores representações cinematográficas da instabilidade da aceitação social.
O pária pode ser tolerado enquanto sua diferença for divertida. O problema surge quando ele deixa de ser novidade.
A estética do isolamento
Burton utiliza uma paleta visual extremamente estilizada para colocar Edward em contraste com a comunidade.
O personagem vestido de preto, com cabelos escuros e mãos metálicas, parece deslocado em meio às cores pastéis da vizinhança.
A aparência não é apenas estética. É uma representação visual de sua condição emocional.
A tesoura, que poderia ser interpretada exclusivamente como instrumento de violência, também representa criatividade. Edward consegue produzir esculturas e transformar aquilo que o torna diferente em expressão artística.
A obra recebeu indicação ao Oscar por maquiagem e acumulou diversos outros reconhecimentos, incluindo premiações relacionadas à fantasia, direção de arte e música. (IMDb)
Nota: ⭐⭐⭐⭐⭐ 5 de 5 estrelas
O bonequinho de Edward Mãos de Tesoura
O bonequinho começa curioso, fica empolgado com as esculturas de Edward e termina completamente emocionado. Na cena final, já está olhando para a televisão com aquela expressão clássica de quem sabe que o conto de fadas não terminou exatamente como gostaria.
4. Taxi Driver — 1976
O arquétipo do pária ganha uma dimensão muito mais sombria em Taxi Driver.
Martin Scorsese dirige o roteiro de Paul Schrader, acompanhando Travis Bickle, interpretado por Robert De Niro. O personagem é um veterano de guerra que trabalha como taxista durante a noite em uma Nova York degradada.
Jodie Foster, Cybill Shepherd, Harvey Keitel e Albert Brooks também integram o elenco. A fotografia é de Michael Chapman, a montagem envolve Marcia Lucas, Tom Rolf e Melvin Shapiro, e a trilha sonora é de Bernard Herrmann. O filme tem 114 minutos. (Wikipedia)
Quando o pária deixa de ser apenas vítima
Travis não é apresentado simplesmente como alguém rejeitado.
Ele também se afasta voluntariamente.
Sua dificuldade de estabelecer conexões, sua visão cada vez mais radicalizada da cidade e sua obsessão por uma espécie de limpeza moral fazem com que o personagem ultrapasse a fronteira entre isolamento e violência.
Essa é uma das características mais interessantes do filme: o espectador acompanha um personagem que deseja conexão, mas é incapaz de construir relações saudáveis.
A solidão, nesse caso, não produz necessariamente compreensão.
Pode produzir distorção.
A cidade como personagem
Nova York aparece quase como um organismo vivo.
As ruas noturnas, os táxis, os cinemas, os bares e os estabelecimentos decadentes criam a sensação de que Travis atravessa um universo do qual nunca consegue fazer parte.
A câmera frequentemente observa o personagem de maneira distante, como se também estivesse tentando compreender quem ele é.
O resultado é um estudo psicológico sobre solidão, alienação e desejo de encontrar significado.
Nota: ⭐⭐⭐⭐⭐ 5 de 5 estrelas
O bonequinho de Taxi Driver
O bonequinho começa entediado junto com Travis, fica cada vez mais desconfortável conforme a história avança e termina encarando a tela em silêncio, sem saber se deve respirar aliviado ou ficar ainda mais preocupado.
5. Rambo: Programado para Matar — 1982
O arquétipo do pária também aparece no cinema de ação através de John Rambo.
Em Rambo: Programado para Matar, o personagem interpretado por Sylvester Stallone é um veterano da Guerra do Vietnã que chega a uma pequena cidade procurando apenas um antigo companheiro.
O encontro com a autoridade local desencadeia uma perseguição.
Ted Kotcheff dirige o filme, escrito por Michael Kozoll, William Sackheim e Sylvester Stallone a partir do romance de David Morrell. Richard Crenna interpreta o coronel Trautman, enquanto Brian Dennehy interpreta o xerife Teasle. Jerry Goldsmith assina a música. (Paramount Pictures)
O soldado que voltou para um país que não o reconhece
Rambo é um tipo diferente de pária.
Ele não foi excluído porque nasceu diferente. Ele foi transformado em estrangeiro dentro do próprio país.
Sua experiência de guerra criou uma identidade que não encontra espaço na vida civil.
O personagem sabe sobreviver em ambientes extremos, mas não sabe como retornar a uma rotina comum.
Essa contradição dá ao filme uma dimensão muito mais melancólica do que sua fama como produção de ação pode sugerir.
A natureza como refúgio
Grande parte do conflito acontece em uma região florestal.
A natureza funciona como território no qual Rambo finalmente recupera vantagem. Quanto mais ele se distancia da cidade, mais confortável se torna.
O paradoxo é evidente: o indivíduo considerado perigoso pelas autoridades parece mais adaptado à floresta do que à sociedade.
O filme possui cerca de uma hora e meia e combina ação, sobrevivência e drama psicológico. (IMDb)
Nota: ⭐⭐⭐⭐½ 4,5 de 5 estrelas
O bonequinho de Rambo: Programado para Matar
O bonequinho passa de preocupado para empolgado em poucos minutos. Depois percebe que a história é muito mais triste do que parecia e termina sentado, pensativo, segurando uma faixa na cabeça imaginária.
6. Mad Max — 1979
Antes de se transformar em um dos grandes símbolos do cinema pós-apocalíptico, Max Rockatansky era um policial.
Em Mad Max, George Miller apresenta uma sociedade à beira do colapso, dominada pela violência e pela perda progressiva das estruturas tradicionais.
Mel Gibson interpreta Max, acompanhado por Joanne Samuel, Hugh Keays-Byrne, Steve Bisley e Roger Ward. George Miller dirige e participa do roteiro, enquanto David Eggby assina a fotografia, Tony Paterson e Cliff Hayes a montagem e Brian May a música. O filme possui 93 minutos. (Wikipedia)
O pária produzido pelo colapso
Max começa integrado ao sistema.
Ele é policial, possui família e tenta manter alguma normalidade.
O problema é que a própria sociedade ao redor está deixando de funcionar.
A violência destrói gradualmente as estruturas que davam sentido à vida do protagonista. Quando sua identidade anterior deixa de ser possível, nasce uma nova versão de Max.
Ele se transforma em alguém que pertence cada vez menos ao mundo que tenta proteger.
A estrada como símbolo
A estrada representa movimento constante.
O personagem não possui mais um lar emocional estável. Ele está sempre avançando porque permanecer parado significa confrontar aquilo que perdeu.
Essa característica seria ampliada nas sequências posteriores, mas já aparece claramente no primeiro filme.
O pária aqui não é apenas um indivíduo rejeitado pelos demais. É alguém que sobrevive à própria sociedade.
Nota: ⭐⭐⭐⭐½ 4,5 de 5 estrelas
O bonequinho de Mad Max
O bonequinho fica acelerado como o motor do Interceptor. Depois das perseguições, precisa de alguns segundos para lembrar que estava sentado no sofá e não dentro de um carro em alta velocidade.
7. Coringa — 2019
Poucos filmes contemporâneos transformaram o pária em centro absoluto da narrativa como Coringa.
Joaquin Phoenix interpreta Arthur Fleck, um homem solitário que trabalha como palhaço e sonha em se tornar comediante. Todd Phillips dirige o roteiro escrito com Scott Silver.
Robert De Niro, Zazie Beetz e Frances Conroy também fazem parte do elenco. Lawrence Sher assina a fotografia, Jeff Groth a montagem e Hildur Guðnadóttir a trilha sonora. O filme tem 122 minutos. (Wikipedia)
Da invisibilidade à identidade
Arthur começa como alguém praticamente invisível.
Ele circula pela cidade, trabalha, tenta estabelecer relacionamentos e busca reconhecimento.
Sua transformação não acontece simplesmente porque deseja ser famoso. O filme constrói gradualmente a sensação de que sua identidade social está desmoronando.
O personagem cria uma nova persona, e essa persona passa a ocupar o espaço que antes pertencia ao homem invisível.
É justamente aí que o arquétipo do pária se torna perigoso.
A narrativa mostra como a necessidade de reconhecimento pode adquirir formas destrutivas quando o indivíduo passa a interpretar sua exclusão como justificativa para romper completamente com as normas sociais.
Cidade, desigualdade e espetáculo
A cidade de Gotham funciona como extensão do protagonista.
A diferença entre classes, a violência urbana e a cultura do espetáculo aparecem constantemente.
Arthur quer ser visto, e o mundo ao redor só parece prestar atenção quando ele deixa de obedecer às regras convencionais.
O filme recebeu o Leão de Ouro em Veneza e obteve 11 indicações ao Oscar, vencendo nas categorias de ator e trilha sonora original. (Wikipedia)
Nota: ⭐⭐⭐⭐½ 4,5 de 5 estrelas
O bonequinho de Coringa
O bonequinho começa triste, fica desconfortável, leva alguns sustos e termina olhando para a tela com aquela expressão de quem definitivamente não pretende comentar o filme durante os créditos.
8. Logan — 2017
Em Logan, o arquétipo do pária aparece como consequência de um mundo que deixou de ter espaço para seus antigos heróis.
James Mangold dirige a produção, com roteiro de Scott Frank, Michael Green e do próprio Mangold. Hugh Jackman interpreta Logan, enquanto Patrick Stewart, Dafne Keen, Richard E. Grant, Boyd Holbrook e Stephen Merchant completam o elenco principal.
John Mathieson assina a fotografia, Michael McCusker e Dirk Westervelt a montagem, e Marco Beltrami a trilha sonora. A duração é de 137 minutos. (Wikipedia)
Um herói que não pertence mais ao próprio mito
Logan está cansado, envelhecido e distante da imagem heroica que um dia representou.
Ele não vive mais em um universo de grandes aventuras. O mundo mudou e os mutantes estão praticamente desaparecendo.
O personagem passa boa parte da história tentando evitar responsabilidades.
Entretanto, a chegada de Laura obriga Logan a assumir novamente uma função de proteção.
O pária encontra sentido quando percebe que ainda pode estabelecer uma ligação com outra pessoa.
A estrada e a despedida
A estrutura de viagem transforma o filme em uma espécie de faroeste moderno.
Os personagens atravessam paisagens, encontram ameaças e tentam chegar a um lugar onde possam recomeçar.
A viagem é física, mas também emocional.
Logan precisa decidir se continuará isolado ou se aceitará novamente o vínculo humano que passou tantos anos tentando evitar.
A fotografia reforça esse tom crepuscular. O filme usa espaços amplos, estradas e paisagens rurais para transmitir a sensação de que aquele universo está chegando ao fim.
Nota: ⭐⭐⭐⭐⭐ 5 de 5 estrelas
O bonequinho de Logan
O bonequinho começa cansado, recupera a atenção durante as cenas de ação e termina abraçado ao próprio balde de pipoca. Os créditos chegam e ele continua olhando para a tela como se ainda esperasse uma última chance de se despedir.
O que esses filmes têm em comum?
Apesar das diferenças de época e gênero, os filmes desta Lista de Filmes com o Arquétipo do Pária apresentam estruturas semelhantes.
O primeiro elemento é a separação.
O personagem está fora do grupo.
Quasimodo está isolado fisicamente. Merrick é excluído pela aparência. Edward não consegue se adaptar à vizinhança. Travis Bickle vive uma existência emocionalmente desconectada. Rambo não encontra espaço na sociedade civil. Max perde sua posição dentro de um mundo em colapso. Arthur Fleck é ignorado até transformar sua identidade. Logan se afasta de um mundo que praticamente já não possui lugar para ele.
O segundo elemento é o olhar dos outros.
O pária quase sempre é definido parcialmente pela maneira como os demais personagens o enxergam.
Isso é fundamental porque o arquétipo não depende apenas de estar sozinho.
Uma pessoa pode viver isolada e não ser um pária. O pária é aquele cuja relação com o grupo foi rompida, negada ou impossibilitada.
O pária como vítima
Em O Corcunda de Notre Dame e O Homem Elefante, a exclusão é principalmente imposta pelos outros.
Os protagonistas não escolheram nascer diferentes.
O conflito está no preconceito.
Nesses casos, o cinema utiliza o pária para questionar a tendência humana de transformar diferenças em justificativas para a crueldade.
O pária como incompreendido
Edward Mãos de Tesoura leva o conceito para o território da fantasia.
Edward não é mal-intencionado. Sua diferença, entretanto, cria consequências que ele não consegue controlar.
O filme mostra que uma sociedade pode acolher alguém enquanto considera sua diferença interessante e rejeitá-lo quando essa mesma diferença passa a representar inconveniência.
O pária como ameaça
Taxi Driver e Coringa apresentam uma evolução diferente.
Nessas histórias, a exclusão não permanece somente como sofrimento.
Ela passa a fazer parte da transformação do protagonista.
A diferença importante é que os filmes não precisam afirmar que a sociedade é a única responsável pelas ações dos personagens. O interesse está justamente na tensão entre circunstâncias externas e escolhas individuais.
O pária como sobrevivente
Rambo: Programado para Matar e Mad Max transformam o isolamento em habilidade.
Esses personagens funcionam melhor longe das estruturas convencionais.
A floresta é mais segura para Rambo do que a cidade. A estrada se torna o espaço natural de Max.
O pária, nesse caso, desenvolve competências que a sociedade comum não valoriza até precisar delas.
O pária como último herói
Logan acrescenta uma camada diferente.
O personagem não está simplesmente fora da sociedade.
Ele está fora do próprio tempo.
Seu mundo desapareceu.
Essa é uma característica importante do pária moderno: às vezes, ele não é excluído por ser diferente, mas porque pertence a uma época que deixou de existir.
Por que o arquétipo do pária funciona tão bem no cinema?
O pária é um excelente protagonista porque permite que o público veja o mundo por uma perspectiva externa.
Personagens integrados à sociedade normalmente aceitam muitas regras sem questioná-las.
O pária não.
Ele percebe aquilo que os outros personagens consideram normal.
Por isso, filmes sobre excluídos frequentemente abordam temas como:
- preconceito;
- solidão;
- desigualdade;
- violência;
- pertencimento;
- identidade;
- trauma;
- rejeição;
- aparência;
- envelhecimento;
- exclusão social;
- transformação;
- vingança;
- sobrevivência.
O arquétipo também cria uma pergunta dramática poderosa:
o personagem precisa mudar para encontrar seu lugar ou a sociedade precisa mudar para aceitá-lo?
Cada filme desta lista oferece uma resposta diferente.
O simbolismo do isolamento
Outro elemento recorrente é a utilização do espaço físico para representar o estado emocional do personagem.
A torre de O Corcunda de Notre Dame representa distância.
As instituições e ruas de O Homem Elefante representam exposição.
A vizinhança colorida de Edward Mãos de Tesoura representa uma comunidade aparentemente perfeita, mas profundamente conformista.
A noite de Taxi Driver representa o isolamento psicológico.
A floresta de Rambo: Programado para Matar transforma-se em território de sobrevivência.
A estrada de Mad Max representa uma sociedade em movimento permanente.
Gotham, em Coringa, funciona como uma cidade que produz e observa seus próprios marginalizados.
E a estrada de Logan representa uma última tentativa de encontrar um lugar para existir.
Qual é o melhor exemplo do arquétipo do pária?
Não existe uma única forma de representar o arquétipo.
Se o interesse está no pária como vítima do preconceito, O Homem Elefante e O Corcunda de Notre Dame apresentam exemplos particularmente fortes.
Para uma abordagem fantástica e melancólica, Edward Mãos de Tesoura trabalha o tema através de uma fábula visual.
Para o pária psicológico, Taxi Driver oferece uma abordagem mais perturbadora.
Para o sobrevivente, Rambo: Programado para Matar e Mad Max mostram personagens que encontram no isolamento uma vantagem.
Para uma leitura contemporânea sobre exclusão, identidade e transformação, Coringa oferece uma das representações mais controversas do arquétipo.
E para o pária como herói crepuscular, Logan transforma o isolamento em uma história sobre responsabilidade e legado.
Ficha técnica dos filmes
| Filme | Ano | Direção | Gênero | Duração |
|---|---|---|---|---|
| O Corcunda de Notre Dame | 1939 | William Dieterle | Drama, romance | 116 min |
| Taxi Driver | 1976 | Martin Scorsese | Drama, suspense psicológico | 114 min |
| Mad Max | 1979 | George Miller | Ação, ficção científica | 93 min |
| O Homem Elefante | 1980 | David Lynch | Drama biográfico | 123 min |
| Rambo: Programado para Matar | 1982 | Ted Kotcheff | Ação, aventura, drama | 93 min |
| Edward Mãos de Tesoura | 1990 | Tim Burton | Fantasia, romance | 105 min |
| Coringa | 2019 | Todd Phillips | Drama, suspense psicológico | 122 min |
| Logan | 2017 | James Mangold | Ação, drama, ficção científica | 137 min |
Os dados técnicos principais de O Corcunda de Notre Dame, O Homem Elefante, Edward Mãos de Tesoura, Taxi Driver, Mad Max, Rambo: Programado para Matar, Coringa e Logan foram conferidos a partir dos registros disponíveis sobre cada produção. (Wikipedia)
Final explicado: o destino do pária
O arquétipo do pária não possui um único final.
Em algumas histórias, o personagem encontra aceitação. Em outras, encontra vingança. Há casos em que descobre um novo propósito e também aqueles em que a exclusão acaba contribuindo para uma transformação irreversível.
Essa diversidade é justamente o que torna a Lista de Filmes com o Arquétipo do Pária tão interessante.
Quasimodo revela que a aparência não determina o caráter. Merrick demonstra que dignidade pode existir mesmo quando o mundo insiste em reduzi-lo a uma atração. Edward descobre que amor e pertencimento podem coexistir com a impossibilidade de permanecer junto de quem ama.
Travis Bickle apresenta uma versão mais sombria: o isolamento pode deformar a percepção que alguém possui de si mesmo e da sociedade.
Rambo representa o trauma de quem retorna de uma experiência extrema sem conseguir recuperar o lugar que possuía antes. Max transforma a perda em sobrevivência. Arthur Fleck converte a invisibilidade em uma identidade destrutiva. Logan, por sua vez, encontra no vínculo com outra geração uma razão para abandonar parte do isolamento.
O grande significado do arquétipo está justamente nessa diferença.
O pária pode ser vítima, sobrevivente, artista, anti-herói, ameaça ou herói.
Mas quase sempre existe uma pergunta por trás de sua jornada:
o que acontece com alguém que passa tempo demais vivendo do lado de fora?
É essa pergunta que conecta filmes tão diferentes e explica por que a figura do excluído continua sendo uma das mais poderosas do cinema.
Por: Alexandre lavrador. Opinião do Blogueiro.
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