Antes de MySpace, Facebook, Orkut e praticamente toda a geração de redes sociais que dominaria a internet nos anos seguintes, existiu o Friendster. Lançado em março de 2003, o serviço transformou uma ideia aparentemente simples — conhecer pessoas por meio dos próprios amigos — em uma das primeiras grandes redes sociais da internet. Em poucos meses, milhões de pessoas estavam criando perfis, adicionando amigos e escrevendo os famosos “testimonials”.
A história do Friendster começa ainda em 2002, quando o engenheiro canadense Jonathan Abrams desenvolveu a ideia de uma rede que aproximasse pessoas através de conexões sociais reais, em vez de colocá-las diante de completos desconhecidos em sites de relacionamento.
O serviço entrou em beta público em março de 2003 e cresceu praticamente sem marketing tradicional. Os primeiros usuários convidavam seus próprios amigos, que convidavam outros amigos, formando uma enorme rede interligada.
E existe uma informação especialmente importante para quem procura os primeiros registros da plataforma: uma reportagem contemporânea de setembro de 2003 identificou Jonathan Abrams como o primeiro usuário registrado do Friendster.
Mas isso não significa que conheçamos a primeira postagem feita dentro da rede.
Essa publicação continua sem identificação pública confiável.
1. 2002 — nasce a ideia do Friendster
A história começa antes de existir qualquer perfil público.
Jonathan Abrams trabalhava com tecnologia e já havia participado de projetos como a HotLinks. A ideia do Friendster surgiu de sua insatisfação com os sites de namoro existentes, que colocavam pessoas diante de desconhecidos.
O conceito era diferente:
se alguém fosse conhecer uma pessoa nova, seria melhor que houvesse algum amigo em comum.
Em vez de:
estranho → encontro
o Friendster propunha:
amigo → amigo → amigo → nova pessoa.
Uma entrevista publicada em 2003 explica que Abrams desenvolveu a ideia justamente a partir dessa lógica de encontros mediados por amizades existentes.
A proposta também ajudava a resolver um problema de confiança que os serviços de relacionamento da época enfrentavam.
2. Agosto de 2002 — começa a versão privada
Depois de desenvolver o protótipo, Abrams levantou aproximadamente US$ 400 mil em capital inicial junto a investidores e abriu uma versão privada do Friendster para pessoas próximas.
Uma reportagem retrospectiva descreve que essa primeira versão foi lançada em agosto de 2002, inicialmente para amigos e conhecidos do fundador.
Essa etapa é fundamental.
Quando alguém pergunta:
“Qual foi o primeiro post do Friendster?”
existem pelo menos três possibilidades cronológicas diferentes:
- a primeira informação criada por Abrams durante o desenvolvimento;
- o primeiro conteúdo da versão privada de 2002;
- o primeiro conteúdo produzido depois da abertura pública em 2003.
Nenhuma dessas três coisas pode ser identificada atualmente com segurança.
3. Março de 2003 — Friendster chega à internet pública
O beta do Friendster foi aberto publicamente em março de 2003.
É essa data que aparece consistentemente nas fontes contemporâneas e nos estudos históricos sobre a plataforma.
O serviço ainda era considerado beta.
Mas o crescimento foi extraordinário.
Em vez de uma campanha publicitária gigantesca, a expansão acontecia através do próprio produto:
um usuário convidava seus amigos.
Esses amigos convidavam outras pessoas.
E essas pessoas convidavam outras.
O próprio Abrams explicou posteriormente que o Friendster praticamente não fazia marketing tradicional naquele começo: o crescimento acontecia através dos convites dos próprios usuários.
Era o embrião do que posteriormente seria chamado de crescimento viral.
4. Jonathan Abrams foi o primeiro usuário registrado
Aqui está um dos registros mais interessantes de toda a história inicial do Friendster.
Em uma reportagem publicada em 15 de setembro de 2003, o próprio fundador aparece identificado como:
“Friendster’s first registered user”
ou seja, o primeiro usuário registrado do Friendster.
Na época, Abrams já possuía 155 amigos dentro da plataforma e uma rede pessoal considerável.
Isso permite estabelecer uma peça importante da reconstrução histórica:
Primeiro usuário registrado conhecido:
Jonathan Abrams
Primeiro post:
não identificado publicamente
Essa diferença é essencial.
Saber quem criou a primeira conta não significa saber qual foi o primeiro conteúdo publicado.
5. O primeiro perfil provavelmente nasceu antes da explosão pública
Como Abrams foi o primeiro usuário registrado, seu perfil ocupa uma posição especial na história da rede.
Mas é importante não confundir:
primeiro perfil
com
primeira postagem.
O Friendster foi desenvolvido inicialmente pelo próprio Abrams e depois testado por seu círculo de amigos e conhecidos.
Assim, seu perfil provavelmente funcionou como um dos primeiros pontos de partida da rede.
A arquitetura dependia disso.
Não existia muito sentido em abrir uma rede de amigos se o fundador não tivesse sua própria rede para iniciar o processo.
6. Os primeiros convites criaram a rede
O grande diferencial do Friendster era que o usuário não simplesmente procurava qualquer pessoa.
O sistema fazia com que as relações fossem construídas através de convites.
Uma reportagem do Washington Post publicada em julho de 2003 descreveu o mecanismo: o usuário entrava através de um convite, criava seu perfil e convidava seus próprios amigos, que posteriormente convidavam outras pessoas.
O sistema permitia visualizar conexões de até quatro graus de separação.
Isso significa que o Friendster transformava uma simples lista de amigos em um enorme mapa social.
Você podia descobrir:
você → amigo → amigo do amigo → outra pessoa.
A rede deixava de ser apenas uma agenda de contatos.
Ela passava a ser uma representação visual da estrutura social dos usuários.
7. Os primeiros “testimonials”
Uma das características mais marcantes do Friendster era o sistema de testimonials.
Os usuários podiam escrever depoimentos sobre seus amigos.
Isso produzia uma forma de conteúdo que se tornou extremamente característica da rede.
Em setembro de 2003, o Washington Post já descrevia o funcionamento:
usuários preenchiam seus perfis e recebiam testimonials escritos pelos amigos.
E temos evidências ainda mais antigas de que esses registros eram produzidos em 2003.
Um estudo acadêmico sobre o Friendster preservou uma imagem de um perfil com testimonials datados de:
- 11 de novembro de 2003;
- 13 de novembro de 2003;
- 12 de dezembro de 2003.
Esses registros são importantes porque mostram como a produção de conteúdo social funcionava na prática.
O usuário não precisava escrever uma publicação pública como fazemos hoje.
Ele podia:
criar perfil → adicionar amigo → receber testimonial → responder socialmente.
8. O primeiro testimonial absoluto também não é conhecido
Mesmo com esses documentos preservados, não podemos afirmar que um deles seja:
“o primeiro testimonial da história do Friendster”.
O material acadêmico preserva exemplos de 2003, mas não apresenta uma sequência completa de todos os testimonials existentes desde março.
Por isso, a reconstrução correta é:
primeiros testimonials preservados: existem exemplos documentados de novembro de 2003.
primeiro testimonial absoluto: desconhecido.
Essa distinção evita um erro muito comum em pesquisas sobre redes sociais antigas: transformar o registro mais antigo que sobreviveu em “o primeiro de todos”.
9. Maio de 2003 — Friendster começa a aparecer na imprensa
A rede começou a escapar do círculo de amigos e alcançar a imprensa ainda nos primeiros meses de funcionamento.
Em 2 de maio de 2003, uma publicação já descrevia a experiência de um usuário completamente fascinado pelo serviço, relatando como ele passava horas explorando perfis e modificando sua própria página.
Pouco depois, a Time publicou uma matéria em 2 de junho de 2003, quando o Friendster ainda estava em beta e já possuía aproximadamente 268 mil membros.
Esse número é impressionante quando lembramos que o produto havia acabado de aparecer.
A plataforma praticamente crescia através da própria estrutura social.
10. Julho de 2003 — um milhão de usuários
Em julho, a escala já havia mudado completamente.
A Wired informou em 17 de julho de 2003 que o Friendster estava prestes a atingir 1 milhão de usuários. A reportagem dizia que o serviço havia sido aberto ao público em março e crescia aproximadamente 20% por semana, segundo a empresa.
O Friendster havia conseguido algo raro:
transformar uma rede de amigos em uma máquina de crescimento.
Cada usuário novo aumentava o número potencial de conexões.
E cada conexão incentivava mais pessoas a entrar.
A cronologia dos 10 registros mais antigos do Friendster
| Nº | Data | Registro | O que sabemos |
|---|---|---|---|
| 1 | 2002 | Primeira versão privada | Abrams testa o conceito com amigos e conhecidos |
| 2 | 2002 | Primeiros perfis de teste | Conteúdo interno inicial, hoje não preservado integralmente |
| 3 | mar. 2003 | Beta público | Friendster começa sua expansão |
| 4 | mar. 2003 | Jonathan Abrams | Identificado posteriormente como primeiro usuário registrado |
| 5 | mar.–abr. 2003 | Primeiros convites | Rede cresce por indicação entre amigos |
| 6 | maio 2003 | Primeiras reportagens | A imprensa começa a registrar o fenômeno |
| 7 | jun. 2003 | 268 mil membros | Time registra a expansão inicial |
| 8 | jul. 2003 | Aproximação de 1 milhão | Crescimento extraordinariamente rápido |
| 9 | nov. 2003 | Testimonials preservados | Existem exemplos datados de 11 e 13 de novembro |
| 10 | dez. 2003 | Testimonials preservados | Outros registros mostram a consolidação da cultura dos depoimentos |
Mas qual foi exatamente a primeira postagem do Friendster?
Não sabemos.
E essa é uma das partes mais interessantes da história.
O Friendster não possuía, na época, uma cultura de arquivo público comparável à de plataformas modernas.
Não existe hoje uma base pública completa mostrando:
Postagem nº 1 → usuário → horário → conteúdo.
Além disso, a rede passou por enormes transformações ao longo dos anos.
A versão original da plataforma desapareceu e seus dados sociais históricos foram posteriormente removidos quando o serviço de rede social foi encerrado.
Um estudo apresentado em 2013 registrou que o Friendster havia encerrado seu serviço de rede social e apagado os dados dos perfis, enquanto o Internet Archive preservara parte do material que conseguiu capturar.
Por isso, uma afirmação como:
“Este foi o primeiro post do Friendster”
não pode ser feita com segurança.
O primeiro usuário é conhecido; a primeira postagem, não
Essa é talvez a melhor maneira de resumir a investigação.
Primeiro usuário registrado conhecido:
Jonathan Abrams.
Primeiros usuários:
amigos e conhecidos convidados pelo círculo de Abrams.
Primeira versão:
privada, em 2002.
Beta público:
março de 2003.
Primeiro post:
não identificado.
Primeiros testimonials preservados:
novembro de 2003.
A primeira grande rede social baseada em identidade real
O Friendster também ajudou a estabelecer uma característica que posteriormente se tornaria comum nas redes sociais:
a identidade real.
Abrams dizia que queria uma experiência diferente da internet anônima.
Em entrevista à imprensa, explicou que desejava uma rede em que as pessoas utilizassem seus nomes reais e construíssem conexões dentro de um contexto social conhecido.
Isso explica por que os perfis tinham:
- nome;
- foto;
- interesses;
- relacionamento;
- localização;
- informações pessoais;
- amigos;
- testimonials.
A ideia era que o perfil representasse uma pessoa real.
O limite de quatro graus
O Friendster não tentava mostrar toda a internet.
Seu sistema originalmente restringia a navegação a pessoas que estivessem dentro de quatro graus de separação.
Essa limitação tinha uma lógica.
Se cada pessoa pudesse visualizar qualquer usuário existente, a rede se transformaria rapidamente em um enorme diretório de desconhecidos.
O Friendster queria preservar o contexto social.
Você conhecia alguém porque:
alguém que você conhecia conhecia essa pessoa.
Essa estrutura acabou se tornando uma das marcas mais importantes da plataforma.
Os “Fakesters” mudaram a cultura da rede
Nem todo mundo queria utilizar o Friendster apenas para representar a própria identidade.
Usuários começaram a criar perfis falsos ou personagens.
Esses perfis ficaram conhecidos como Fakesters.
Havia personagens fictícios, celebridades, marcas, objetos e até conceitos.
Uma reportagem da Salon de agosto de 2003 descreveu, por exemplo, um perfil chamado Giant Squid, que havia acumulado centenas de amigos antes de ser suspenso.
O fenômeno mostrava uma tensão importante.
A empresa havia criado uma rede baseada na ideia:
“pessoas reais conectadas a pessoas reais”.
Os usuários responderam:
“E se transformarmos os perfis em personagens?”
A primeira grande comunidade do Friendster não era necessariamente homogênea
Pesquisas acadêmicas posteriores identificaram três grupos que tiveram importância especial na formação da cultura inicial do Friendster:
- blogueiros;
- participantes do Burning Man;
- homens gays.
Essas comunidades ajudaram a transformar uma ferramenta inicialmente pensada para relacionamentos e encontros em uma rede social mais ampla.
Esse processo é importante.
O produto foi concebido com uma finalidade.
Os usuários encontraram outras finalidades.
Isso aconteceria repetidamente na história das redes sociais.
A rede cresceu rápido demais
O sucesso inicial criou seu próprio problema.
O Friendster precisava calcular continuamente as conexões entre milhões de usuários.
Cada página poderia envolver:
amigos → amigos dos amigos → amigos dos amigos dos amigos → quarto grau.
O crescimento fez com que a infraestrutura tivesse dificuldades para acompanhar a demanda.
Uma análise histórica da plataforma descreve o problema: em 2003, o sistema enfrentava gargalos de desempenho e os tempos de carregamento começaram a aumentar conforme a quantidade de usuários crescia.
Em outras palavras:
o mapa social que fazia o Friendster especial também ajudava a torná-lo tecnicamente pesado.
Final de 2003 — milhões de pessoas já estavam dentro
Em novembro de 2003, a Time informou que o Friendster já tinha ultrapassado 3 milhões de usuários registrados.
Uma reportagem do Los Angeles Times publicada em dezembro de 2003 falava em aproximadamente 4 milhões de pessoas cadastradas.
Tudo isso havia acontecido em poucos meses.
O serviço tinha passado de:
protótipo em um apartamento
para:
uma das maiores redes sociais da internet.
O primeiro grande fenômeno viral das redes sociais
O Friendster não foi a primeira tentativa de construir uma rede social.
Antes dele existiram projetos como SixDegrees e outros serviços de relacionamento e comunidades.
Mas o Friendster conseguiu combinar vários elementos de uma forma que chamou enorme atenção em 2003.
Ele tinha:
perfil pessoal
amizades
amigos de amigos
convites
fotos
testimonials
descoberta de pessoas
relacionamentos amorosos
comunidade.
Um estudo clássico sobre redes sociais publicado posteriormente classificou o Friendster como parte da geração que ajudou a definir o formato moderno dos sites de relacionamento social.
2004 — começa a crise
A mesma velocidade que criou o sucesso começou a gerar problemas.
Os usuários reclamavam da lentidão.
As páginas demoravam para carregar.
A rede crescia mais rapidamente do que a infraestrutura conseguia acompanhar.
Além disso, começaram a surgir conflitos sobre o que poderia ser publicado nos perfis.
A eliminação de Fakesters e outras decisões de moderação geraram insatisfação entre parte dos primeiros usuários. Estudos sobre a plataforma apontam que problemas técnicos e mudanças na relação entre empresa e comunidade contribuíram para o afastamento de usuários pioneiros.
Nesse período, uma nova geração de redes sociais começou a aparecer.
MySpace entra em cena
O MySpace surgiu em 2003, justamente quando o Friendster ainda estava crescendo.
A relação entre os dois serviços é histórica.
Segundo estudos sobre as primeiras redes sociais, o MySpace conseguiu atrair parte dos usuários insatisfeitos com o Friendster, enquanto bandas e outros grupos encontraram no novo serviço mais liberdade para criar perfis.
A partir daí, a internet social começou a ficar muito mais competitiva.
Friendster perde espaço nos Estados Unidos
O Friendster deixou de ser a principal referência da rede social americana.
Mas aconteceu algo extraordinário:
a rede não desapareceu.
Ela encontrou uma segunda vida na Ásia.
A descoberta das Filipinas
Em determinado momento, os engenheiros do Friendster perceberam algo estranho.
O tráfego estava crescendo durante horários que não faziam muito sentido para a Califórnia.
A explicação estava do outro lado do planeta.
Filipinas.
A comunidade filipina havia adotado o Friendster em escala enorme.
Uma investigação interna identificou Carmen Leilani de Jesus, uma consultora filipino-americana, como uma espécie de elo inicial dessa expansão. Ela era a 91ª pessoa a entrar no Friendster e estava diretamente conectada a Abrams e a diversos filipinos que, posteriormente, trouxeram milhares de outras pessoas para a plataforma.
Esse detalhe é extraordinário.
A 91ª usuária não foi necessariamente a primeira filipina.
Mas sua rede de conexões ajudou a explicar como o Friendster atravessou o Pacífico.
A segunda vida do Friendster
Em 2008, a Time relatava que aproximadamente três quartos dos 58 milhões de usuários do Friendster estavam na Ásia.
Filipinas, Indonésia, Malásia e Singapura tornaram-se mercados fundamentais.
A matéria descrevia o Friendster como o site mais visitado nas Filipinas e na Indonésia e o segundo mais visitado em Malásia e Singapura naquele período, segundo os rankings citados pela publicação.
Foi uma transformação impressionante.
O Friendster havia perdido espaço nos Estados Unidos.
Mas tornou-se um fenômeno em outra região do planeta.
2009 — o Friendster ainda era gigantesco na Ásia
Em 2009, a plataforma continuava muito forte nas Filipinas.
Uma entrevista publicada naquele ano registrou uma estimativa de 40 milhões de usuários registrados nas Filipinas, com cerca de 13 milhões de usuários ativos, segundo o executivo entrevistado.
O número deve ser entendido como uma declaração da própria empresa, e não como uma contagem independente.
Ainda assim, mostra a dimensão que o Friendster havia alcançado naquele mercado.
2011 — começa a transformação em plataforma de jogos
O Friendster acabou mudando completamente de natureza.
Em 2011, deixou de funcionar como a rede social original e passou a concentrar-se em jogos sociais.
Essa mudança alterou radicalmente o significado do nome Friendster.
A rede que havia ajudado a popularizar:
perfis + amigos + testimonials
passava a funcionar como uma plataforma de entretenimento.
2015 — o serviço é encerrado
O serviço de jogos também acabou.
O Friendster suspendeu suas operações em 2015, citando as mudanças no mercado e a falta de engajamento da comunidade online.
Assim terminou uma trajetória que havia começado mais de uma década antes.
O que aconteceu com as primeiras postagens?
Essa é uma das partes mais tristes para quem pesquisa a história das redes sociais.
A grande maioria dos conteúdos originais do Friendster não sobreviveu publicamente.
O serviço mudou várias vezes.
A rede social foi encerrada.
Os dados dos perfis foram apagados.
E o Internet Archive conseguiu preservar apenas parte das páginas que conseguiu capturar.
Pesquisadores chegaram a procurar especificamente screenshots antigos porque até mesmo imagens da interface original eram difíceis de encontrar. Danah Boyd, que estudou o Friendster desde seus primeiros anos, chegou a pedir publicamente em 2005 que usuários enviassem screenshots antigos da plataforma.
Isso mostra o tamanho do problema de preservação.
Os registros que sobreviveram
Apesar da perda de dados, alguns vestígios extraordinários permanecem.
Entre eles estão:
o primeiro usuário registrado conhecido — Jonathan Abrams;
as primeiras descrições contemporâneas da plataforma;
screenshots de perfis de 2003;
testimonials preservados;
reportagens de maio, junho e julho de 2003;
registros de crescimento de usuários;
estudos acadêmicos baseados em observação direta;
cópias arquivadas pelo Internet Archive.
É através desses fragmentos que podemos reconstruir a história.
Então, quais foram realmente as primeiras postagens do Friendster?
A resposta mais rigorosa é:
Primeiro conteúdo absoluto
Não identificado.
Primeiro usuário registrado
Jonathan Abrams.
Primeiros perfis
Abrams e seu círculo inicial de amigos e conhecidos.
Primeiros conteúdos sociais conhecidos
Perfis, amizades, convites e testimonials.
Primeiros testimonials preservados
Registros de novembro de 2003.
Primeiro crescimento público documentado
268 mil membros em junho de 2003 e quase 1 milhão em julho.
Primeiro grande pico
Milhões de usuários no segundo semestre de 2003.
A importância histórica do Friendster
O Friendster não inventou sozinho a ideia de rede social.
Antes dele já existiam experiências como SixDegrees e outras plataformas.
Mas ele ajudou a transformar uma série de conceitos em uma experiência que milhões de pessoas entenderam imediatamente:
“Quem são meus amigos?”
“Quem são os amigos dos meus amigos?”
“Quem eu poderia conhecer?”
“O que meus amigos pensam de mim?”
E, principalmente:
“Quem está conectado a quem?”
Essa última pergunta foi o coração do Friendster.
A rede não era apenas uma coleção de páginas pessoais.
Era um mapa social vivo.
Friendster e a origem do “friend request”
A lógica de solicitar e aceitar amizades tornou-se uma das características fundamentais das redes sociais que vieram depois.
O próprio Jonathan Abrams é associado à criação do sistema de friend request, posteriormente adotado e transformado por outras plataformas. Em entrevista ao Los Angeles Times, ele destacou essa contribuição ao explicar a evolução das redes sociais.
Depois vieram:
MySpace.
Facebook.
Orkut.
LinkedIn em escala maior.
E, posteriormente, praticamente todas as redes sociais modernas.
A linguagem mudou.
Mas a estrutura básica permaneceu:
perfil → conexão → rede.
O legado dos testimonials
Outro elemento do Friendster merece destaque.
Os testimonials eram uma espécie de antepassado das recomendações sociais.
Um amigo escrevia publicamente algo sobre você.
Isso ajudava a construir sua identidade dentro da rede.
O perfil deixava de ser somente aquilo que você dizia sobre si mesmo.
Passava a incluir aquilo que:
outras pessoas diziam sobre você.
Essa ideia reapareceria de diversas formas nas redes sociais posteriores.
Friendster foi uma máquina de conexões antes de ser uma máquina de conteúdo
Essa talvez seja a melhor maneira de entender a plataforma.
Hoje pensamos em redes sociais principalmente como lugares para:
- publicar vídeos;
- publicar fotos;
- escrever textos;
- compartilhar notícias;
- acompanhar influenciadores.
O Friendster tinha uma lógica diferente.
O centro era:
a relação entre pessoas.
O conteúdo existia para reforçar a relação.
O perfil apresentava a pessoa.
O testimonial apresentava a reputação.
A lista de amigos apresentava sua rede.
Os amigos dos amigos apresentavam possibilidades de novas conexões.
Era uma rede social no sentido mais literal da expressão.
A reconstrução dos 10 primeiros registros
Depois de separar o que é comprovável do que não pode ser recuperado, os dez registros mais antigos e relevantes da história do Friendster ficam assim:
1. 2002 — protótipo privado criado por Jonathan Abrams.
2. 2002 — primeira versão testada por amigos e conhecidos.
3. Março de 2003 — beta público do Friendster.
4. Março de 2003 — Jonathan Abrams aparece como primeiro usuário registrado conhecido.
5. Março–abril de 2003 — expansão por convites entre amigos.
6. Maio de 2003 — primeiras grandes reportagens sobre a plataforma.
7. Junho de 2003 — Friendster alcança cerca de 268 mil membros.
8. Julho de 2003 — aproxima-se de 1 milhão de usuários.
9. Novembro de 2003 — testimonials antigos preservados.
10. Dezembro de 2003 — a rede já reúne milhões de usuários e se transforma em fenômeno cultural.
O primeiro post do Friendster continua sendo um mistério
Depois de toda essa investigação, a conclusão é bastante clara.
Sabemos quem foi o primeiro usuário registrado conhecido.
Sabemos aproximadamente quando a plataforma começou.
Sabemos como os primeiros usuários entraram.
Sabemos como funcionavam os primeiros perfis.
Temos exemplos preservados de testimonials de 2003.
Temos screenshots da interface inicial.
Temos reportagens publicadas enquanto a rede ainda estava crescendo.
Mas não temos o documento que resolveria definitivamente a questão:
o primeiro post do Friendster.
Ele provavelmente existiu em algum momento entre os primeiros testes privados de 2002 e os primeiros meses do beta público de 2003.
Pode ter sido escrito pelo próprio Jonathan Abrams.
Pode ter sido algum conteúdo de teste.
Pode ter sido um perfil criado durante o desenvolvimento.
Pode ter sido uma primeira conexão ou mensagem entre os primeiros usuários.
Sem o banco de dados original, porém, qualquer uma dessas hipóteses seria apenas especulação.
E é justamente isso que torna os vestígios sobreviventes tão importantes.
O Friendster foi uma das primeiras grandes redes sociais da era moderna.
Antes de Facebook, antes de Orkut dominar o Brasil, antes de MySpace se tornar fenômeno musical, houve uma pequena rede criada em 2002 e aberta ao público em março de 2003.
Seu primeiro usuário registrado conhecido foi Jonathan Abrams.
Seus primeiros usuários vieram de sua própria rede de relacionamentos.
Seus primeiros conteúdos giravam em torno de perfis, amizades, convites e testimonials.
E seus primeiros meses transformaram o Friendster em um dos maiores fenômenos da internet de 2003.
A primeira postagem absoluta, entretanto, continua perdida.
E talvez esse seja o registro mais representativo de todos: a rede que ensinou a internet a mapear amizades acabou perdendo justamente boa parte de sua própria memória.
Por: Alexandre lavrador. Opinião do Blogueiro.
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